Faz exatamente uma semana que não nos falamos. Não é a primeira vez que isto ocorre. Mas é a primeira vez que me sinto desistindo de tolerar. Acho que ele está quase conseguindo o que quer: me afastar dele. Um dia assisti na tv um senhor, já idoso e com muitos anos de casamento, dar uma dica sobre relacionamento. Disse ele que o segredo é nunca ir dormir sem resolver uma questão mal resolvida. Velhinho sábio. Com certeza, toda vez que ele faz isso, se cala e vai dormir, meus pensamentos vêm com tudo, uma turbulência de críticas que faz nascer e alimenta, a cada dia, um sentimento de ódio, a meu ver, irreversível.
Escrito por M.A às 18h40
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Andei pesquisando na internet sobre depressão. Tema sobre o qual ninguém quer falar ou ler, eu sei, mas desconfio de estar sofrendo deste mal sem saber. Ultimamente ando sem ânimo para tudo. Até coisas que antes me davam prazer, como por exemplo ler, não me dão mais. Acho que todos esses anos de tratamento pesado, silêncio e problemas de relacionamento foram uma "bomba" para o meu equilíbrio emocional e psicológico. Até em suicídio penso, vez e outra. Quando meu marido, sem mais nem menos, parou de falar comigo, passei a primeira noite em claro, pensando o tempo todo em me matar. Acho que isto não é normal. Não sei, entretanto, como resolver o problema. Psicólogo? Psiquiatra? Sou tão desconfiada...
Escrito por M.A às 18h33
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Sei que este blog teve início nada animador. É que passo por uma situação difícil. Estou doente. Ninguém quer saber de doente. Então sou obrigada a fingir que não estou doente. O médico sugeriu um tratamento quimioterápico. Por fim, concluiu: veja bem, não estou prometendo nada! Na família ninguém sabe. Da última vez que me internei para tratamento, até padre pretendiam chamar para me dar a extrema unção. A única pessoa que sabe é ele, que não é, como eu disse, muito chegado em falar. Passo oito anos em silêncio, sentindo a preemência da morte, conversando comigo mesma e me consolando. Acho que aguento tudo, mas não aguento nada. É muito estressante. Porém ninguém quer falar sobre o assunto. Faz todo mundo de conta que não tenho nada. De vez em quando lembram que eu tenho alguma coisa, mas é sempre para se justificar, em proveito próprio, para demonstração de sua bondade: não fui à sua casa porque a Mirella está doente; vc não deveria falar isso de mim ou me cobrar nada, porque a Mirella está doente; vc deveria se envergonhar, porque têm problemas muito piores que o seu. É sempre com o intuito de censurar o outro, impingindo-lhe a pecha de insensível, e reafirmar sua enorme bondade. Boa parte da culpa é minha, bem sei. Vivi todos esses anos mostrando uma força que não tenho ou que talvez acabou. Agora não encontro nada ao redor. Assistência material, sim, não vou negar. Recebo visitas diárias no hospital, acompanhamento ao médico (vez em quando), mas assistência emocional, espiritual, estou tão carente disso... Por isso escrevo essas linhas mal escritas e desencontradas, como último recurso de diálogo, quem sabe, entre mim e a máquina. Acredite em mim: é melhor estar cercada de gente ruim, que gente boa. Às vezes tenho pensamentos sinistros. Desejo que alguém fique doente como eu, somente para ter como observar o comportamento alheio. Será que vai ser igual? Será que "a ficha cai"?
Escrito por M.A às 01h19
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Quero ter um filho, adotivo. Nada de ter um filho com o meu sangue, minhas células, minha carga genética. De células podres bastam as minhas e não aguento pensar nisso com tanta criança apodrecendo nos abrigos. Fato é que, depois de muito tempo insistindo, consegui convencê-lo a adotar. Não o convenci de seu preconceito enrustido, porque, como disse, ele é um homem muito bom. Porém para complicar a situação sou sazonal. Tenho momentos de melhora e de piora de um câncer contra o qual luto há oito anos. Então o que ocorre: quando estou bem, ele para de falar comigo (nem sempre sei o motivo. Normalmente, tem a ver com a limpeza e organização da casa); quando fico doente, ele fica todo animado e se declara predisposto à adoção. Dias desses foi assim. Quando soube que iniciaria um tratamento quimioterápico, acertamos de ir, assim que eu melhorasse, à Vara da Infância. Passados dois meses, adiei o tratamento para o ano que vem. Porém agora não posso assuntar a questão, porque ele não fala comigo. Quando estiver doente, fará de tudo para me agradar, inclusive prometer comparecer na Vara assim que eu me recuperar. Como posso eu requerer a habilitação e ser entrevista pelas assistentes sociais com cara de quem tá morrendo?
Escrito por M.A às 00h45
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Caso prático: um dia vc acorda ao lado de alguém que simplesmente não fala contigo. Por certo, fizeste algo de que ela não gostou. No entanto, nunca vai saber, porque o "filho da mãe" não fala. Prefere falar quando quizer e se quizer. Aí, vc é obrigada a olhar para a cara da pessoa, esbarrar nela pelos quatro cantos da casa, calada. Um dia essa mesma pessoa lhe disse: não vou mais me sujeitar a ouvir o que tem para me dizer. Isto me faz muito mal. E O MAL QUE ME FAZ FICANDO EM SILÊNCIO? NÃO LHE IMPORTA? Tudo bem, eu bem posso suportar tudo, já demonstrei, pensa vc. Vc é bom, um homem bom demais e acredita nisso. Depois, passa horas no computador a pesquisar modelos de avião para seu hobby, como se nada estivesse acontecendo. E para piorar, ainda hoje, escuto de uma amiga, após eu lhe afirmar que o casamento de seus pais era exemplar: Igual ao seu!!!!! MERDA.
Escrito por M.A às 00h40
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O silêncio como forma de controle e manipulação. Alguém se arrisca a comentar suas experiências?
Escrito por M.A às 23h43
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A melhor forma de alguém romper um relacionamento é a seguinte: o parceiro fica doente e você inconscientemente, é claro, deseja que ele morra. Inconscientemente, eu disse, porque ninguém quer se sentir, ou ser visto como, um mostro. Então, você acompanha o calvário dele, ficando a seu lado, assistindo-lhe em casa, no hospital, dando-lhe tanto carinho, até que um dia, ninguém, nem mesmo ele (se não seria um ingrato), terá "isso" para falar de ti, por mais que mereceste. Vc será sempre lembrado como um bom homem, e até se convencerá disso.
Escrito por M.A às 23h35
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